Watsu para auxiliar no processo psicoterápico

Watsu pode ser uma técnica auxiliar no processo psicoterápico – Eliana K. Hashimoto Terada[1]
O que é o Watsu, e qual a sua possível utilização em Psicologia?
De modo sucinto, podemos dizer que Watsu é uma técnica de relaxamento profundo, realizada em água morna que pode servir de instrumento para terapias corporais.

 

Gostaria, inicialmente de falar como cheguei ao Watsu. A procura de uma técnica de relaxamento que pudesse ser realizado na água teve seu principio há mais ou menos dez anos atrás, quando eu ainda era estudante de psicologia pela PUC-SP e instrutora de natação. O meu primeiro estágio com técnicas corporais foi no Posto de Saúde em Teotônio Vilela com um grupo de Hipertensos, foi uma experiência muito boa, pois conseguimos ótimos resultados em pouco tempo.
Continuei a minha trajetória na faculdade freqüentando os antigos núcleo 28 e 8 – respectivamente: Identidade e Corpo e Terapia Psicomotora. Dentro do núcleo 28, realizei meu primeiro atendimento com pessoas da terceira idade. Após este atendimento clínico individual, participei de um experimento: atendimentos a grupos de terceira idade sendo conduzido por estudantes da graduação.

Já nesta época eu perguntava a minha supervisora se não existiria alguma técnica de relaxamento na água, pois eu percebia que muitas pessoas que me procuravam para aulas de natação precisavam de um auxilio terapêutico: durante seu contato com a água, afloravam conteúdos ligados a problemas emocionais que dificultavam o aprendizado da natação. Observando tais dificuldade, fui desenvolvendo uma nova maneira de ensinar a nadar: ao invés de estimular simplesmente a imitação e repetição dos movimentos do professor, passei a fazer um trabalho de percepção corporal na água.

Deste modo, procurei estimular meus alunos no sentido de entrarem em contato com medos, frustrações, conteúdos emocionais dos quais pareciam ter pouco consciência.

Progressivamente, passei a ser procurada por pessoas que, além de pretenderem aprender a nadar, sentiam também a necessidade de um trabalho psicoterápico. Iniciei um trabalho conjunto (natação e psicoterapia) desenvolvido ao longo de 3 anos. Os resultados positivos desse trabalho me estimularam ainda mais a desenvolver uma técnica específica que auxiliasse o processo da psicoterapia. Desde então, venho adaptando técnicas corporais para serem realizadas na água. Mas eu sentia que apenas ‘adaptações’ ainda não totalmente satisfatórias. E com o conhecimento do Watsu parece que encontrei o que estava faltando.

MINHA PRIMEIRA VIVÊNCIA DE WATSU
A TÉCNICA NASCEU NOS ESTADOS UNIDOS FOI BATIZADA DE WATSU (WATER SHIATSU, OU SEJA, SHIATSU NA ÁGUA) PELO SEU CRIADOR, HAROLD DULL. TRATA-SE DE UMA TERAPIA CORPORAL, PRATICADA NA ÁGUA MORNA, CUJA BASE É O ZEN-SHIATSU. PROPORCIONA ÀS PESSOAS DE QUALQUER FAIXA ETÁRIA UM RELAXAMENTO PROFUNDO POR MEIO DE TRAÇÕES E ALONGAMENTOS FEITOS PELO TERAPEUTA.

O texto acima e a minha vivência pessoal anterior era o que eu sabia sobre o WATSU quando resolvi fazer o curso. Ter passado pela vivência era condição necessária para poder fazer o curso, então resolvi experimentar e achei a técnica muito interessante, pois após a sessão de WATSU, eu estava bastante relaxada, e bastante disposta como se tivesse “recarregado a pilha”. O curso de WATSU I foi ministrado por Alexander Georgeakopoulos e realizado no sítio de Ursula Garthoff, a responsável pela divulgação do curso aqui no Brasil; em Mairiporã, teve duração de uma semana.

O grupo era composto de 14 pessoas; a maioria mulheres e com variada composição de profissionais: fisioterapeutas, educador físico, professor de hidroginástica, médico, dentista, psicomotricista e eu como psicóloga e instrutora de natação.

Durante o curso, fui percebendo que os conteúdos internos das pessoas estavam sendo mobilizados. Uma das pessoas relatou, após a aula, que estava se sentindo muito bem, mas que depois de algum tempo começou a sentir sua garganta e seu peito apertado, outra começou a se queixar de dores no ombro e no pescoço. Esta última, já no fim do curso, me pediu uma assessoria, pois estava entrando em contato com seus problemas e, apesar de estar em terapia, me relatou o seguinte: “A terapia vem tentado trabalhar este conteúdo mas eu não tinha conseguido colocar para fora tudo o que me incomodava. Estou tendo mais consciência, apesar de já saber, sei o quão difícil vai ser modificar estas coisas na minha vida… mas eu já não agüento mais.”

A minha própria vivência pessoal me chamou atenção, pois, durante o curso, trabalhei com questões relativas a ser mãe (já era mãe de uma bebê: uma menina) e a ser filha. Após participar do segundo estágio do curso – o Watsu II -, pude concluir que no grupo anterior, por haver maior número de mulheres, tais questões apareceram com maior freqüência. Esses fatos me chamaram a atenção e fizeram com que me interessasse ainda mais pela técnica, pois realmente o WATSU parece facilitar a mobilização de estados alterados da consciência e sua proporcional ampliação.

Resolvi que participaria do curso de WATSU II para obter maior experiência e aprendizado da técnica. Já esse segundo grupo compunha-se na maior parte por homens, e a experiência foi bastante diferente. Percebi que as pessoas estavam mais trabalhadas, mesmo aquelas que haviam participado do grupo anterior. As experiências vividas neste grupo voltaram-se mais a relacionamentos afetivos (relação homem/mulher).

A minha mobilização pessoal envolveu, principalmente, questões ligadas à figura paterna (autoridade). Percebi que o curso acaba tendo uma atuação terapêutica grupal, embora não exista alguém exercendo a função de psicólogo para acolher as questões emergentes. Isso me deixou um pouco preocupada.

Como outras técnicas corporais, o Watsu tem sua ação terapêutica em si mesma. Porém, no contexto psicoterápico, é necessário que o profissional que o utiliza tenha formação adequada, a fim de fazer a ponte “vivência/elaboração da experiência vivida”. Exemplificando: Ao flexionar simultaneamente o tronco e pernas do cliente proporciono um movimento que geralmente mobiliza um estado de introspecção (posição fetal). Por outro lado, ao estender (alongar) essas mesmas estruturas do corpo, posso estar mobilizando na pessoa sensações de expansão e liberdade.

Desde que passei a utilizar tais técnicas – integrando-as ao trabalho que descrevi no início deste relato – percebo em alguns pacientes um significativo avanço no processo terapêutico: principalmente nos casos que envolvem a queixa de depressão e/ ou medo da água. A técnica parece, segundo minha experiência, bastante interessante e promissora para o trabalho dos psicólogos, como mais um recurso a ser integrado ao atendimento terapêutico.

Nota:
[1] Psicóloga formada pela PUC-SP, Especialização em Cinesiologia pelo Instituto Sedes Sapientiae
Watsu e a Psicologia
Paralelo à formação em sistêmica e pelo meu interesse crescente por desenvolver um trabalho voltado para os aspectos corporais, faço uma formação em Watsu. Watsu é uma terapia corporal desenvolvida na água. Em sessões de aproximadamente uma hora o terapeuta apóia e movimenta o paciente à medida que alonga e massageia os pontos de tensão muscular. O Watsu se fundamenta na liberdade de movimentos e de torções realizadas dentro da água. A piscina aquecida à 35 o C aumenta a sensibilidade dos tecidos e favorece o fluxo sanguíneo. Esta terapia aquática promove um estado profundo de relaxamento com mudanças no Sistema Nervoso Autônomo. Por aquietar o Sistema Nervoso Simpático e aumentar o Sistema Nervoso Parassimpático, o Watsu tem efeitos profundos no Sistema Neuromuscular.

Como diz Harold Dull, criador desta técnica: “Desde o começo eu concebi o Watsu como uma poesia em movimento que proporciona a vida fluir, abandonando os fardos que o corpo carrega.”

PARA QUÊ UMA PSICÓLOGA BUSCARIA UMA FORMAÇÃO EM WATSU?

Eu já desenvolvia um trabalho corporal junto com a sistêmica quando comecei a praticar Watsu com os meus clientes. Que crenças levariam uma terapeuta corporal e sistêmica a se interessar por um trabalho na água que é aplicado na maioria das vezes por fisioterapeutas?

O início da vida, o encontro do espermatozóide e do óvulo, começa no meio fluído. O feto durante toda a gestação fica no útero que é um local recheado de líquido, o amniótico. É lá que durante os nove meses o bebê irá se formar. Grande percentual de nosso corpo é composto de água. Temos vários sistemas em nosso organismo que funcionam na forma fluída possibilitando movimentos, o sistema linfático, o sistema circulatório, o intestino com seus movimentos peristálticos, o sistema urinário etc.

Desta forma eu levantava hipóteses. Os movimentos na água levam a pessoa a um estado “regressivo” no sentido de estar completamente dependente do cuidado do outro (o terapeuta) muito semelhante à situação uterina.

Trabalhar no meio aquático com as pessoas com respiração, manipulando as couraças, as camadas embrionárias poderia reequilibrar o funcionamento do sistema corporal e no emocional ativaria lembranças e sensações antigas, tornando o padrão de funcionamento consciente e trazendo à tona uma potência curativa. Sem contar que o meu contato com a água sempre foi extremamente prazeroso, um ambiente em que eu me sinto completamente à vontade.

Quando falamos da sistêmica estamos nos referindo do micro para o macro. É o átomo, a molécula, a célula, o organismo, a pessoa, a família, o mundo. Trabalhar com uma pessoa, corporalmente ou verbalmente, nos faz ter a consciência de que estamos ativando o seu universo, o da pessoa que nos procura, o de suas gerações anteriores e as gerações que virão. Desatar nós significa deixar o outro mais livre e libertar todo um sistema.

No final deste trabalho em “ANEXOS” encontram-se informações sobre a terapia corporal, sensações uterinas, padrões pré-natais, parto e o processo de encouraçamento que justificam teoricamente a minha busca. Estas leituras são importantes para compreender o meu encantamento pela corporal e da junção que foi possível fazer com a sistêmica.

TERAPIA NA ÁGUA

Após definir com o cliente os objetivos da terapia, ou seja, quais as mudanças necessárias e o que ele precisa aprender, com alguns clientes passo a intercalar a terapia no consultório com sessões na piscina. Avalio se esta experiência vai facilitar algum aprendizado, se eles se sentem à vontade na água e com o contato físico com a terapeuta.

Durante a sessão a pessoa fica na horizontal, uma posição de total passividade, com os olhos fechados apoiada pelo terapeuta que com movimentos básicos de expansão e contração, cria possibilidades para a auto-regulação do sistema.

Segundo Zanella e Mazzesi o corpo é abandonado na água completando alongamentos e movimentos quase impossíveis na “terra”, a partir disso emerge a inteligência sensorial e intuitiva que existe em cada um de nós e nos dá um estímulo vital.

Enquanto o cliente retrocede o terapeuta pode assumir uma figura simbólica de sua família, de alguém que foi seu cuidador de alguma forma. Quando chegamos ao final, ainda com os olhos fechados, o cliente sai de uma postura de passividade, de dependência e eu encosto sua coluna na parede da piscina, devolvendo a ele a posição de grouding, de autonomia. A pessoa está pronta para seguir. É um momento único.

Em que mundo o cliente vai “renascer” quando abrir os olhos? Seus olhos saindo de uma experiência na terapia na água são indescritíveis. Podemos perceber o brilho, a energia refeita, a vitalidade recuperada. A tomada de consciência de seu funcionamento que ocorre durante ou após as sessões na água são fundamentais para o processo terapêutico. C ria-se um ambiente totalmente confortável para a pessoa se soltar emocionalmente. O relaxamento é tão intenso que as pessoas têm muitas vezes a sensação do aconchego do útero materno.

A ÁGUA COMO CO-TERAPEUTA

Neste trabalho não estou sozinha com o cliente. Tenho um instrumento poderoso que é a água. Ela é a minha co-terapeuta. Usando a água como símbolo, metáfora ou usando como instrumento real, é um recurso dos mais eficiente, profundo e encantador. A água faz o movimento ser o mais natural possível. O que dá muita segurança ao terapeuta, diminuindo o risco de “retraumatizar”, ou seja, de reviver a experiência dolorosa e intensificar ainda mais a sua dor, não libertando do trauma, mas reforçando ainda mais as suas defesas.

A água aquecida dá leveza, traz harmonia e integração ao corpo e seus conteúdos. A sensação de ser embalado na água morna, de experimentar o corpo deslizando em movimentos suaves e compassados, leva a um profundo relaxamento físico e mental.

Conforme Fúlvio Zanella coloca em seu texto “A água é um elemento que nós encontramos diariamente no plano físico e imaginativo. Ela representa continente, berço, nutrição, proteção e purificação. Água está dentro e fora de nós. É um elemento que nos faz menos isolados e que nos abre a exploração de necessidades, medos e desejos que cada um traz. A experiência na água dá a possibilidade de viver emoções profundas e entrar em contato com o potencial criativo. Ajuda a abandonar as tensões, as distorções, as posturas que as feridas representam, os abusos, as faltas, as manipulações sofridas, e a dar boas-vindas à força curativa.”

Quanto mais movimentos são feitos na água, mais quietude interna a pessoa experimenta. O silêncio encontrado dentro da água é muito profundo. Proporciona para a pessoa um momento de encontro consigo mesmo. O contato com as respostas que estão dentro de si. Poder ouvir é uma condição biológica, mas saber ouvir é um aprendizado. É um espaço para que o cliente se atualize. Novos recursos são encontrados ao tocar o seu corpo. Nova percepção relacional. A arte da terapia é aprender a contatar estes recursos e aprofundá-los.

Nem sempre as sessões são só prazerosas. Assim como na vida, as sessões podem ter momentos de incômodos, mal-estar, sensações de tontura e náuseas. É um trabalho em que o medo vem à tona e é experimentado. Atrai por oferecer amor incondicional, toque que alimenta, libertação, paz e descanso. Tudo isto pode estar tão em falta na vida que quando experimentado atravessa a armadura e derruba as defesas. Mesmo assim a torre caindo no mar não precisa ser traumática. A desintegração e o renascimento podem ser calmos. Mesmo desencadeando os sentimentos mais devastadores, simultaneamente dá segurança e espaço para eles. Os movimentos suaves na água baixam a freqüência cardíaca e algumas pessoas chegam a dormir durante o trabalho.

A água leva a um equilíbrio mental e espiritual. Ela mobiliza sentimentos. Não interpreto, não tiro conclusões. Neste momento ouço, dou continente, espaço e tempo para que a pessoa compreenda estas reações ou não. Apenas consiga sentir, experimentar o incômodo e sobreviver a ele de uma forma funcional, que possa trazer aprendizados.

CUIDANDO DO CUIDADOR

A terapia na água também está voltada para os estudantes e profissionais da área de saúde. Profissionais que em sua atividade diária no cuidado de vidas e restituição do bem-estar das pessoas, podem acabar produzindo quadros de depressão, ansiedade, estresse. O efeito destes quadros muitas vezes é subestimado. Aos poucos é que se tem disseminado a preocupação com a necessidade de cuidar de quem cuida.

TERAPIA NA ÁGUA COM GRUPOS

Após um tempo com as sessões individuais na água inicio o trabalho com grupos. Utilizando os conceitos da terapia corporal e sistêmica desenvolvo o trabalho que chamo de “terapia na água”. No grupo ensino uma seqüência de movimentos que as pessoas, em duplas, aplicam uma nas outras. Há um momento em que a pessoa faz o movimento no outro e depois recebe. Após o trabalho na água vamos compartilhar o que foi vivido. O trabalho em grupo é uma ferramenta poderosa revelando o quanto se permite, dentro de uma situação protegida, explorar o que se viveu na água, e depois na “terra” trazer à consciência, para pensar em comportamentos novos, explorando o “aqui e agora”. Para isto uso dramatizações, jogos de papéis, movimentos corporais, trabalhos com argila e colagem.

A Terapia Biossistêmica é uma terapia corporal com conceitos sistêmicos que descreve o encontro entre as teorias com base biológicas e uma visão sistêmica das relações que ajudam a integrar processos fisiológicos de vários níveis (molecular, orgânico) a campos diversos das funções mentais (lógico-verbal, imaginativo-visual). É impossível solucionar alguns conflitos de um núcleo familiar, sem responsabilizar cada membro da própria família pela sua cota de participação nesse conflito. E como é difícil resolver a patologia de um indivíduo se ela não é situada dentro do complexo familiar. (Stupiggia, 1997).

Sistemas com fronteiras rígidas experimentam a oportunidade de fazer movimentos na água para flexibilizar. Sistemas com fronteiras difusas aprendem a tornar mais claro os seus limites. Isto aparece no olhar, no gesto e no corpo. Da forma como a sessão é conduzida a palavra perde um pouco o seu impacto, a sua importância.

O toque corporal, o ser embalado na água por alguém da família, cria a oportunidade de transformar o significado da experiência. Algumas vezes pude presenciar a ação curativa do perdão acontecendo apenas pelo toque, sem que a palavra fosse necessária. A compaixão pelo outro se faz presente em muitos momentos.

A água permite experiências quase impossíveis na “vida real” como embalar nos braços um filho já adulto. A relação de confiança muitas vezes é tema das sessões. Abrir mão do controle, se entregar para que o outro conduza os movimentos nem sempre é tarefa fácil.

A experiência com casais também é gratificante. Observar suas colusões e trabalhar com novas possibilidades. O parceiro que só recebe ou o que só dá experimenta o “fazer diferente”. Nem melhor, nem pior, mas diferente.

A competição através de movimentos lúdicos pode se transformar em cooperação.

Casais que esperam um bebê fazem parte de um sistema que vai se adaptando a esta nova formação. A gestante ao ser cuidada por mim ou pelo seu parceiro na água, se identifica com o seu bebê. O meio aquático traz sensações para a mãe e ela relata que devem ser muito semelhantes às sensações de seu filho. Algumas relatam que o bebê se movimenta muito durante a sessão sintonizados com o que está acontecendo.

O QUE DIZ O CORPO DO TERAPEUTA?

Postura, ritmo lento e ponderado, processo meditativo e consciente da respiração, vibração, cadência e pulsação. O tom é dado pela relação terapeuta-cliente. O terapeuta e seu corpo são, literalmente, instrumentos terapêuticos.

Na Terapia Biossistêmica, Maurizio Stupiggia diz que observa-se muito a relação entre a mãe e o filho. Há uma dança, um baile de gestualidade nos primeiros meses onde o filho tem que completar o gesto e o olhar se ele encontrar um ambiente receptivo.

Na sessão não é diferente, o terapeuta entra na “dança”. Ele pretende estar em intimidade com o outro sem ser sedutor, estar em união com o outro sem ser projetivo, saber ajudar o outro sem ser diretivo. O terapeuta aberto ao diálogo não-verbal aprenderá com seu cliente, assim como o ensinará. Existirá uma maior interação dinâmica entre eles baseada em uma comunicação aberta e um processo de desenvolvimento mútuo.

O corpo do terapeuta é uma ferramenta fundamental. É ele que entrará em sintonia com as mais sutis tensões e estados emocionais do cliente. Reich chamava este processo de “identificação vegetativa”. Isto significa, sentir em seu próprio corpo o esforço do cliente, seu ritmo e sua qualidade de pulsação. A interação corpo a corpo é uma das formas mais poderosas de aprender novos padrões de crescimento. O terapeuta se torna algumas vezes, um “dançarino de contato”, que guia o cliente para uma nova experimentação de suas raízes corporais. A terapia é então uma forma de orientação de contato.

Obviamente, transferência e contra-transferência, com o uso do toque são fortes e o terapeuta precisa ter realizado muito trabalho pessoal antes de estar pronto para participar desta forma profunda de diálogo somático de uma maneira responsável, que evite o perigo de invasão. (David Boadella).

CONCLUSÃO

De acordo com um artigo de Esther Frankel, um psiquiatra mencionou que a psicoterapia orientada para a palavra é freqüentemente criticada por só trabalhar na extremidade de cima do corpo, dando ênfase para a cabeça, se envolvendo principalmente com questões racionais e intelectuais. É sabido, a partir de pesquisas com crianças e bebês, que as emoções profundas que estão provavelmente envolvidas nas desordens psíquicas existentes estão na esfera da aquisição pré-verbal. Se quisermos entrar nesta esfera requeremos métodos pré-verbais. É muito plausível que estas emoções primitivas e arcaicas, como amor e ódio, estejam mais relacionadas ao toque e a movimentos corporais do que a palavra que desenvolve-se mais tarde. O sistema emocional relacional está enraizado no corpo. A experiência somato-motora é a base do desenvolvimento do self. Sendo assim as terapias corporais tem conquistado um espaço cada vez maior.

Torna-se evidente o fato de que toda pessoa que apresenta um problema emotivo traz em si a necessidade de que a levem em conta tanto verbal quanto corporalmente. Os distúrbios psicossomáticos derivam da discrepância entre os dois níveis: o corpo não tem as palavras para dizer aquilo que sente necessidade de exprimir. Quantas pessoas vêm à terapia queixando-se de seus males e, ao mesmo tempo, manifestando surpresa por não estarem curadas apesar da leitura de muitos livros de psicologia que as informaram sobre sua patologia. O componente corporal da emoção, na verdade, não é redutível a conceitos, tem existência própria: é a garantia do fato de que aquilo que eu afirmo sentir não é um raciocínio vazio e, sim, um sentimento real. (Maurizio Stupiggia, 1997).

Assim, torna-se mais clara a necessidade de fazer também o corpo entrar no estudo do terapeuta. Esta é uma linguagem da doença, uma linguagem sem palavras, dirigida por um sofredor que não pode diagnosticar seu próprio mal estar porque a “própria coisa” é uma experiência inexpressável, que reverbera de seu lugar naquela fase sem palavras, da vida dentro do útero. (Frank Lake).

A Terapia Relacional Sistêmica segue todos os pressupostos teóricos, técnicos e clínicos enfocando o cliente, seja ele um indivíduo, uma família ou um casal, como um sistema em relação. O sistema em terapia necessita tomar consciência do seu funcionamento e das suas dificuldades para desenvolver um programa de mudanças e assim, ter como aprender e treinar os novos comportamentos, atitudes e sentimentos. ( Rosset 2000).

O trabalho seja na água ou na “terra”, deve abrir possibilidades para ampliar a consciência e a mudança no funcionamento de cada um. Qualquer pessoa pode descobrir a leveza e a serenidade proporcionadas pelo trabalho, não só beneficiando quem recebe, mas também quem dá tamanho o envolvimento nesta relação.

É um processo, um caminho a ser trilhado respeitando o limite e o ritmo de cada pessoa.

Diz um ditado antigo: “A mente é como o vento e o corpo como a areia. Se você quer conhecer o vento, observe o movimento da areia.”

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