Traumas emocionais podem passar de pai para filho.

Nossas famílias passam pedaços de seus integrantes para nós em mais de uma maneira. A cor do seu olho pode ser fruto da herança genética, mas nem tudo que herdamos está codificado nas letras do nosso DNA. Uma afinidade por literatura russa pode ser algo que os pais passam por meio de influência social, lendo trechos para as crianças antes de dormir, bem como os pais deles podem ter feito em suas infâncias. Experiências de vida como traumas, segundo uma descoberta de pesquisadores, podem também ser passadas para frente. Crianças podem herdar mudanças que ocorrem na maneira como os genes dos pais são expressados devido a fatores de estresse.

 

Enquanto pesquisadores vão mais fundo na genética, o estudo de como pessoas herdam as experiências de vida de seus ancestrais explodiu. O campo é controverso porque questiona uma premissa básica da herança – que os genes codificados no DNA são a única maneira de passar informações biológicas para gerações futuras. A ideia de uma ‘herança epigenética’, em vez disso, sugere que coisas como preferências por alimentação, o hábito de fumar e o estresse podem impactar as gerações futuras. Fatores do contexto socioambiental como o estresse modificam nosso genes, ao enviar sinais químicos para nossa DNA que os ligam e desligam. Essas instruções químicas, acreditam os pesquisadores, podem ser passadas para frente.

Um novo estudo publicado nesta semana na revista Science sugere que essas mudanças podem impactar mais gerações do que acreditávamos, e mostra como essas mudanças epigenéticas acontecem. Em estudos com vermes, pesquisadores europeus afiliados ao Centre for Genomic Regulation descobriram que estados alterados da expressão genética podem ser herdadas por até cinco gerações. Eles descobriram que essas mudanças podem ser causadas por um lapso que acontece durante o processo que copia o DNA durante a divisão celular.

“Não é exatamente como a herança, porque com cada geração as chances de passar essas mudanças diminui”, conta ao Gizmodo Ben Lehner, principal autor do artigo. “É herança, mas com uma alta taxa de erro”.

Durante os últimos anos, pesquisadores mostraram evidências de herança epigenética em camundongos, ratos e até mesmo humanos. Em 2015, um grande estudo de um time de pesquisadores do hospital Mount Sinai em Nova York procurou informações sobre como o trauma sofrido pelos sobreviventes do Holocausto seria capaz de ser passado para as próximas gerações. Eles analisaram genes de filhos de 32 judeus, incluindo homens e mulheres, que foram presos em campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, que sofreram torturas ou que precisaram se esconder durante a guerra. Eles encontraram evidências de mudanças genéticas em um gene associado a regulação dos hormônios de estresse nas crianças, que parecia estar relacionado com marcações epigenéticas do DNA de seus pais. Isso é significante, porque a forma como os genes são regulados pode determinar como uma pessoa lida com o estresse.

Em camundongos, os estudos foram mais profundos, embora não esteja claro que os mesmos efeitos ocorram em humanos. Em um estudo, os pesquisadores treinaram um camundongo macho a temer o cheiro de flor de cerejeira ao acoplar o aroma com um leve choque elétrico. A cria desses machos exibiram o mesmo medo a esse aroma. Outro estudo com ratos descobriu que diferentes dietas, em camundongos que seriam idênticos senão por essa mudança, poderia resultar em intolerância a glicose e risco de obesidade em suas crias.

Como e por que essas mudanças são transmitidas entre as gerações era o tema de interesse de Lehner e sua equipe. No estudo com vermes, eles inseriram um gene no genoma do verme que normalmente seria silenciado, e descobriram que vermes com o gene também carregaram mutações nas proteínas envolvidas com a cópia do DNA. Seus descendentes não carregaram a mesma mutação na replicação do DNA, mas nas cinco gerações seguintes o gene em questão estava ativo incorretamente.

A ideia de que esses tipos de mudanças são passadas pelas pessoas é controversa. E não existe muitas evidências sólidas de que quaisquer mudanças são passadas para frente para além de uma geração. Mas Lehner disse que a questão verdadeira não é se as mudanças epigenéticas são herdadas.

“Na verdade é um debate quantitativo sobre a quantidade dessa informação não-genética que é passada para frente em humanos”, disse. Em outras palavras, a questão, segundo ele, não é se a informação biológica não-genética é transmitida, mas quanto dela é.

O mecanismo exato não é claro, mas a chamada “herança leve” pode ser uma resposta que humanos desenvolveram para lidar com coisas como a fome. Em plantas, essa ideia é bem estudada. Sinais como mudanças na temperatura, por exemplo, podem impactar coisas como o tempo em que as plantas florescem, por diversas gerações.

A medida em que os fatores ambientais podem afetar as futuras gerações dos seres humanos ainda é amplamente desconhecida. Mas descobrir poderia ter grandes implicações para a saúde humana. Imagine, por exemplo, que a dieta de um pai impacte na possibilidade de seus filhos serem propensos à obesidade ou alérgicos a trigo. Talvez ele pensei duas vezes antes de comer um donut todos os dias no café da manhã.

Até agora, no entanto, ainda existem muitas questões e poucas respostas.

 

Por: 
17 de agosto de 2017

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